Segunda-feira, Maio 12, 2003

escreve-se para não chorar. um amigo resolveu por conta própria colocar os comentários funcionando de novo. não sei se fez isso para incentivar meu rosário de asneiras. se foi conseguiu.

e lá se vão mais linhas e linhas de interminável monólogo público&púbico&púmbleo.

Segunda-feira, Março 10, 2003


de volta


depois de horas entre brumas & caetés volto a dedilhar esse piano monocórdico em busca de testemunho para as estranhas mensagens eletroquímicas que quase sempre abundam quando nada tenho para registrá-las salvo meu já gasto córtex que sempre me trai, escondendo uma ou outra frase em suas fissuras.

Sexta-feira, Dezembro 06, 2002

enquanto o mundo explode esperamos ausentes olhando o ecran brilhante

Domingo, Novembro 17, 2002

Pseudo redes e frações se agitam. Outra onda vem. Muitas formas de ser.
Amnésicos místicos mascam aiuasca, escondidos em rótulos de cachaça bagaceira. Nesse instante em todo mundo besouros conectados carmicamente e aloprando direto zunem z.
Todo o tempo assombrado vagando por tardes sobrenaturais, despejando a plena loucura letra por letra literalmente. Litros e litros de pura selvageria mágica na maquinaria invisível da sociedade dos esmaga-dedos.
Acaba o expediente, volto para a cela sem me despir da dor, essa égua. Eguador balbuciou o bebum alucinando latinisses no meu ouvido, com quem sai para caçar baleias e esqueceu as clássicas bússolas rusticas. Shiva Las Vegas ou Sheila Colomy?

Baladas borrachas bolinando garrafas.

Bifurcações e interstícios. Beleza
Noutra época eram os postes de luz à noite. Toda a vez que penetrava na circunferência ou parava debaixo do facho ele apagava. Não que fosse apagando todos, mas sempre tinha um. Engolido por fnords e arrotado numa mesa cheia de grão-finos. Uma semente que não sabe de medida alguma.
Além de ter aprendido a voar tenho um talento para observar palíndromos em relógios digitais. Por exemplo, à noite sempre quando olho o relógio são vinte e dois e vinte e dois. Durante o dia já vi uma e onze e onze.

Outra coisa que nunca descobri foi porque se devolve o palito usado para a caixa de fósforos. O que sei é que ao voltar a abri-la, o primeiro que vem à mão é o apagado.
Esse é o presente. Saltando degraus, descobri que a gravidade assinou minha alforria. Depois disso passo noites flanando rente e entre um vão e outro parede acima me detendo vez ou outra para apreciar a beleza de pálidas deusas solitárias em suas infundíbulas, à salvo da voraz vontade vilã dos ogros elétricos, peludos & jovens bárbaros crispados. Isso é o que elas pensam. Ah se soubessem de mim . Já esfolei um joelho por isso e descobri que se esqueço que estou voando, não vôo.
Maldito pigarro verde mucoso vegetal alimento de marimbondos mergulhados em barris de hidromel. Fatalmente falarei o fato feito fado, fitando filamentos de filosofia que teimam enfiados em fileiras fortuitas. Correrei o risco da descoberta pelas senhoras nebulosas que testaram sua libido olhando cavalos cobrirem éguas. Depois de banharem suas bucetas bolinadas, movem suas pernas roliças um após a outra, apertado seus grandes lábios um contra o outro, produzindo o som de gomos de bergamota esmagados contra o nariz do primeiro trouxa que elas pegam olhando debaixo de suas poucas saias.

Quarta-feira, Outubro 09, 2002

pouco a pouco retomando reto feito nariz de cera de ouvido carlos gardel imenso campo gravitacional em formato de acordeon dilacera almas covardes na maquinaria de teus pistons e semi-tons.

Quinta-feira, Outubro 03, 2002

falta pouco muito pouco para começarmos a vislumbrar o futuro político do pais. mais isso só fica visível quando os hábitos de consumo são alterados. o debate para governador ontem a noite na rébis foi um porre. era cristão-nazistão, liberal nazistão, nazistão fisiológico, ambientalista, direitista, entreguista, esquerdista e não-sabe-a-que-veio-ista. uma sopa. bolocos inteiros de gente cagando pela boca num espetáculo de horrores de dar inveja. em todo o debate, não ouvi mais de quatro falas coerentes e bem articuladas. termos como 'bomba de efeito retardado' enfeitaram o bolo fecal.
o pior é que vai ter segundo turno aqui.

Segunda-feira, Setembro 30, 2002

ando muito completo de vazios e meu órgão de morrer me predomina. estou sem eternidades e não posso mais saber quando amanheço ontem. está rengo de mim o amanhecer e ouço o tamanho oblíquo de uma folha. atrás do ocaso fervem insetos e enfiei o que pude do meu destino dentro de um grilo.

ranulfo /a.k.a./ juan ruíz alarcón de extramadura buontempo /a.k.a./ pérsio traurig /a.k.a./percival von traurigzeit /a.k.a/fausto wolff



antes d'eu morrer


Frio viscoso. Chão crespo cimentado. Urinosos vapores não
conseguiram perturbar meu sono. Dormi já, há duas horas, e agora
estou sonhando que me concentro em minha própria respiração,
inalando profunda e simultaneamente. Espirais de alta freqüência
deslizam vértebras acima. Ignoro as razões de um espelho no fundo
da sala. Junto ao vaso azul com o gargalo torto é o único objeto
na sala, que é uma avenida estreita e quilométrica. Mesmo assim,
é em sua superfície prateada engolida pela treva da distância
que vejo uma saída para o que estou vivendo aqui (no sonho sei que sonho).
Então entro em processo de dissipação. Viro fumaça.


Dissipado por completo. Cavalgo a imaginação. Minhas rédeas
são infinitas e o leviatã é tão grande que não
consigo definir sua forma. Percorro a glória sutil dos estados sublimes.
Uma enorme vaga onde as lembranças são pequenos filetes luminosos.
Mergulho rápido em todas as direções, visitando reinos
e sub-reinos imemoriais, acessando a colorida memória ribonucléica
da terra. Em plena profusão mnemônica, concreto minha atenção
num ponto. Imediatamente as conexões são geradas, direcionando
minha vontade para lá. Então não sei se aparece uma ravina
ou eu apareço numa. Estou perto de um rochedo recortado, que prepotente,
desafia furiosas vagas imortais. Tão logo recupero minha coesão,
sinto um inconfundível perfume oceânico. Um arrepio me percorre
e fico paralisado. A atmosfera está carregada de eletricidade.



Tomado por uma perplexidade insetívora, observo a enorme sombra inexpugnável
sobre minha cabeça.
Tudo à minha volta esfumaça e fulgura.
Manchas na luz revelam um manto carmesim. Uma face envolta na penumbra do capuz
deixa exposta um adorno prateado. Apóia-se numa bengala ou cajado de
madeira retorcida. Ele olha para mim com desprezo. Bate no manto para soltar
a poeira. Então reconheço o deus Hermes. Calçando talares
e cobrindo a cabeça com o pétaso.


Nosso diálogo dura 300 anos. Quando volto, nem tudo está
no mesmo lugar. A sala perdeu metade do seu tamanho, já não fede
a mijo e ganhou uma janela. A sala agora é uma carroça puxada
por duas mulheres brancas e nuas. Elas não olham para mim. Entre elas
falam um idioma desconhecido. Deslizam, à velocidade da luz e com treinada
desenvoltura, por ruelas tomadas de mercadorias e pessoas. A arquitetura e as
roupas lembram uma cidade do oriente médio. A tribo freak perdida, cujo
principal meio de transporte, pelo que noto são cabines cúbicas,
puxadas por pares de mulheres robustas e sensuais.


Desperto com o rugido ferroso de velhos portões. A camisa adere
a pele e pinga suor. Mesmo de pau duro e não tendo mijado, amanheceu
e estou aliviado. Ouço o eco do arrastar das bandejas pela portinhola
das celas. Chega a minha vez e 234127-C, responsável pela ala norte do
cárcere, deixa meu café.


Duas fatias de pão e uma banana depois, balbucio o sonho para mim
mesmo.
Antes do final do dia terei perdido a maioria dos detalhes. Submergindo
em possibilidades concluo que meu medo é acomodação. Acendo
um cigarro sem filtro. Guardei-o por três anos. Observo a fumaça
expirada. Experimento certa familiaridade com a prisão onde estou. Como
se isso aqui fosse meu. Minha propriedade. Conheço a história
de muitos que estão aqui. Afinal não estou num lugar para, exatamente,
criminosos comuns. Pelo menos essa foi a expressão do maldito desgraçado
nomeado pelos meus algozes para fazer a minha defesa, ao perder a causa. Mas
não quero falar sobre isso agora. O jogo aqui é saber que tudo
é constantemente monitorado e vira relatório. De qualquer forma,
estou preso, obrigado a me submeter a um conjunto de regras bem específicas.
O cotidiano objetivamente conduzido já tomou minha atenção
no começo. Custei a me acostumar. Sabe o que é a porra de um reality
show que já dura trinta anos? Meus tornozelos doem só de pensar.
Inconscientemente prossigo em minha tentativa de recuperar os últimos
quadros do meu sonho. Fachos de luz solar dividem a cela em fatias, fazendo
brilhar nuvens de ácaros entrecortadas por linhas de sombras.




Lá pelas dez da manhã me estico no pátio de horizonte
controlado.
Ao redor, outros como eu, homens de uniforme cinza, quase gelo,
perfilavam como lagartos no calor da manhã. O cabelo raspado, combinado
com o uniforme desbotado no dá uma aura de consentimento e aceitação.
Mimetiza-nos a essa reduzida paisagem. Não parecemos miseráveis.
Reconheço a sombra de um conhecido a quem chamo de Poeta. Nunca soube
seu verdadeiro nome. Trocamos olhares desafiadores. Ele traz um exemplar de
Still Life with a Woodpecker cuja história se passa dentro de um maço
de Camel e explica, entre outras coisas a diferença entre o criminoso
e o fora-da-lei. Disse isso e me passou o livro rindo. Cultivamos o hábito
de longas charlas a respeito dos mais variados assuntos. Menos sobre mulher.
Nunca falamos sobre mulher. Mesmo quando comentamos sobre alguma personagem
romanesca, fizemos com indiferença médica. Certas memórias
têm espinhos depois de muito tempo.


Enquanto conversamos, o espaço é invadido pelo estrondo dos
motores de uma aeronave
. Ela derramava sua sombra pelo pátio e pela
cabeça de todos. Indiferente. Até subir pelo muro e desaparecer
no proibido. Deixa somente o som para trás. Eu vejo os lábios
do Poeta se movendo, mas não posso escuta-lo por alguns segundos ainda.
Então ele me diz que está pensando em desenvolver outras texturas
sobre a atual base que terminou de pintar a semana passada. O filho da puta
ganhou autorização para pintar um painel perto do portão
D. Escolheu verde vivo e amarelo solar.


Antes de anoitecer, 234127-C já me acompanha pessoalmente pelos corredores
da instalação até a minha cela.
Novamente experimento
aquela dor nas laterais dos tornozelos. Aparentemente não sei de algo
que possa ter ocasionado isso.


"Obviamente você adquiriu o seu conhecimento sobre explosivos
assistindo a desenhos animados na televisão.
Todos aqueles animais
de quintal e bichinhos domésticos psicopatas jogando TNT na cama uns
dos outros. Pois bem, as bombas de verdade fazem mais do que queimar o seu pêlo.
E não existe nenhum desenhista de Hollywood para recolocar você
do próximo quadrinho. A dinamite não é uma torta de creme
nas patas de um gatinho irritado ou de um pato vingativo. E não é
uma piada" Marco a página e fecho o livro do escritor de Seattle.
Luxações azuis crescem circunferenciando meus tornozelos.


Altas horas da madrugada já se vão e eu aqui, entre uma piscada
de olhos e outra
. Tomado por uma insônia maligna, noto pelo retângulo
da porta, um lusco-fusco anormal. Vem do corredor e cobre brevemente a cela.
É um isqueiro, cuja luz revela um braço engolido pela treva. Seu
dono é um homem conhecido como Lino. Nunca foi visto com freqüência
ao sol. Aproximo-me da porta ao ouvir meu nome. Como ele sabe o meu nome? Lentamente
e aos cochichos, fico sabendo da primeira tentativa de fuga organizada da história
daquele cárcere. Será preciso amarrar detalhes e acertar certos
relógios.


Choveu três dias e três noites depois dessa conversa. Terminei
de ler o livro. Estou indo devolve-lo. Encontro o Poeta recostado à sombra
de uma passarela de concreto, em queda livre pelo abismo do céu refletido
nos vestígios do aguaceiro. Caminhamos e tal como Lino, confidencio os
mínimos detalhes do plano de fuga que vem sendo arquitetado bem debaixo
do nariz de todos, desde antes da última chuva




Minhas luxações atingiram seu apogeu. São dois discos
escuros em meus tornozelos. Caminho com muita dificuldade. Não quero
chamar atenção indo até a enfermaria. A inspeção
física só acontecerá daqui a uma semana. Algumas colheres
de sal na água, numa bacia de louça que guardo debaixo da cama,
devem resolver. Receita secular para aliviar dores musculares e inchaços.
Com os pés mergulhados na solução e já bem mais
aliviado, posso me concentrar na leitura de alguns livros sobre de mitologia
grega, providenciados pelo Poeta. Página 524, Mercúrio (romano)
Hermês (grego). O mensageiro dos deuses, filho de Zeus com Maia, divindade
menor da mitologia.
Isso já sei. Deus dos trapaceiros, ladrões
e vagabundos. Sem templos consagrados.
Não me enquadro como protegido
do deus. Sob o nome de Hermes Psicopompo, guiava a alma dos mortos para o
inferno... Acima, figura 02, estátua de bronze do italiano Giovanni Bologna,
representando a divindade.Museu do Louvre, Paris....
Meus dedos dos pés
murcharam aguardando a leitura. Página 635, Também chamavam
os gregos hermas, os marcos de pedra quadrados, que mostravam os caminhos, porque
costumavam rematar-se em um meio-corpo ou cabeça de mercúrio.

Fiz conjunções e mais conjunções com o que Lino
me contou naquela madrugada. Senti a ansiedade contraindo minhas glândulas.


Os dias que disfarcei meus tornozelos da vigilância cobraram seu ônus.
Sentado na cama, sinto os pés pesando e noto que a pele em torno dos
inchaços está ressequida e inicia um processo de fragmentação.
Confiro a hora. Cinco esfacelantes minutos de ansiedade e angústia se
arrastam escala acima. Meses de ensaio vem e a execução da grande
peça se aproxima. Estouram bombas de fumaça em praticamente todos
os corredores.



Dez minutos de corre-corre. Gritaria dos guardas. Fumaça. Os primeiro
tiros. Muitos gritos. Fogo. Alguém abre minha cela e muitas outras. Eles
têm as chaves. A vertigem da liberdade me leva de arrasto pelo chão
pestilento dos corredores. A dor em meus tornozelos sobe corpo acima. Tenho
febre. Vejo bem à minha frente o pelotão de choque tomar de assalto
todo o complexo. Continuo me arrastando sem saber exatamente para onde. O esforço
rompe os inchaços anelares. Deles, para meu espanto, surgem pequenas
e potentes asas. Descalço e já sem dor alguma, saio correndo entre
nuvens de fumaça que me queimam os olhos. Pulo sobre cadáveres
de outrora conhecidos. Prestes a descer a escadaria do segundo piso, sou surpreendido
por um pelotão de guardas. Sem exitar, pulo por uma janela quebrada indo
parar no pátio. Ainda não sei como voar. Começo a ganhar
altura em meio a paisagem sanguinária e quase já posso ver o outro
lado dos muros. Logo sou perfurado por muitos espinhos quentes.


Os primeiros projéteis queimam minha carne. Depois não
sinto mais nada e continuo na mesma direção. Detenho-me por um
momento. Olho para baixo. Há um círculo em torno de mim. Estou
deitado no centro do pátio. Meus tornozelos sangram. Numa das laterais,
vejo o Poeta, pulmão furado e cuspindo sangue, ele termina seu painel,
perto do portão D, com tons frios e pinceladas em vermelho.


::José Crepusculo::